LA BÍBLIA Edição Revista e Atualizada João Ferreira

Jó (Author Jó and/or Moisés)

21:1Então Jó respondeu:

21:2Ouvi atentamente as minhas palavras; seja isto a vossa consolação.

21:3Sofrei-me, e eu falarei; e, havendo eu falado, zombai.

21:4É porventura do homem que eu me queixo? Mas, ainda que assim fosse, não teria motivo de me impacientar?

21:5Olhai para mim, e pasmai, e ponde a mão sobre a boca.

21:6Quando me lembro disto, me perturbo, e a minha carne estremece de horror.

21:7Por que razão vivem os ímpios, envelhecem, e ainda se robustecem em poder?

21:8Os seus filhos se estabelecem à vista deles, e os seus descendentes perante os seus olhos.

21:9As suas casas estão em paz, sem temor, e a vara de Deus não está sobre eles.

21:10O seu touro gera, e não falha; pare a sua vaca, e não aborta.

21:11Eles fazem sair os seus pequeninos, como a um rebanho, e suas crianças andam saltando.

21:12Levantam a voz, ao som do tamboril e da harpa, e regozijam-se ao som da flauta.

21:13Na prosperidade passam os seus dias, e num momento descem ao Seol.

21:14Eles dizem a Deus: retira-te de nós, pois não desejamos ter conhecimento dos teus caminhos.

21:15Que é o Todo-Poderoso, para que nós o sirvamos? E que nos aproveitará, se lhe fizermos orações?

21:16Vede, porém, que eles não têm na mão a prosperidade; esteja longe de mim o conselho dos ímpios!

21:17Quantas vezes sucede que se apague a lâmpada dos ímpios? que lhes sobrevenha a sua destruição? que Deus na sua ira lhes reparta dores?

21:18que eles sejam como a palha diante do vento, e como a pragana, que o redemoinho arrebata?

21:19Deus, dizeis vós, reserva a iniqüidade do pai para seus filhos, mas é a ele mesmo que Deus deveria punir, para que o conheça.

21:20Vejam os seus próprios olhos a sua ruina, e beba ele do furor do Todo-Poderoso.

21:21Pois, que lhe importa a sua casa depois de morto, quando lhe for cortado o número dos seus meses?

21:22Acaso se ensinará ciência a Deus, a ele que julga os excelsos?

21:23Um morre em plena prosperidade, inteiramente sossegado e tranqüilo;

21:24com os seus baldes cheios de leite, e a medula dos seus ossos umedecida.

21:25Outro, ao contrário, morre em amargura de alma, não havendo provado do bem.

21:26Juntamente jazem no pó, e os vermes os cobrem.

21:27Eis que conheço os vossos pensamentos, e os maus intentos com que me fazeis injustiça.

21:28Pois dizeis: Onde está a casa do príncipe, e onde a tenda em que morava o ímpio?

21:29Porventura não perguntastes aos viandantes? e não aceitais o seu testemunho,

21:30de que o mau é preservado no dia da destruição, e poupado no dia do furor?

21:31Quem acusará diante dele o seu caminho? e quem lhe dará o pago do que fez?

21:32Ele é levado para a sepultura, e vigiam-lhe o túmulo.

21:33Os torrões do vale lhe são doces, e o seguirão todos os homens, como ele o fez aos inumeráveis que o precederam.

21:34Como, pois, me ofereceis consolações vãs, quando nas vossas respostas só resta falsidade?

22:1Então respondeu Elifaz, o temanita:

22:2Pode o homem ser de algum proveito a Deus? Antes a si mesmo é que o prudenté será proveitoso.

22:3Tem o Todo-Poderoso prazer em que tu sejas justo, ou lucro em que tu faças perfeitos os teus caminhos?

22:4É por causa da tua reverência que te repreende, ou que entra contigo em juízo?

22:5Não é grande a tua malícia, e sem termo as tuas iniqüidades?

22:6Pois sem causa tomaste penhôres a teus irmaos e aos nus despojaste dos vestidos.

22:7Não deste ao cansado água a beber, e ao faminto retiveste o pão.

22:8Mas ao poderoso pertencia a terra, e o homem acatado habitava nela.

22:9Despediste vazias as viúvas, e os braços dos órfãos foram quebrados.

22:10Por isso é que estás cercado de laços, e te perturba um pavor repentino,

22:11ou trevas de modo que nada podes ver, e a inundação de águas te cobre.

22:12Não está Deus na altura do céu? Olha para as mais altas estrelas, quão elevadas estão!

22:13E dizes: Que sabe Deus? Pode ele julgar através da escuridão?

22:14Grossas nuvens o encobrem, de modo que não pode ver; e ele passeia em volta da abóbada do céu.

22:15Queres seguir a vereda antiga, que pisaram os homens iníquos?

22:16Os quais foram arrebatados antes do seu tempo; e o seu fundamento se derramou qual um rio.

22:17Diziam a Deus: retira-te de nós; e ainda: Que é que o Todo-Poderoso nos pode fazer?

22:18Contudo ele encheu de bens as suas casas. Mas longe de mim estejam os conselhos dos ímpios!

22:19Os justos o vêem, e se alegram: e os inocentes escarnecem deles,

22:20dizendo: Na verdade são exterminados os nossos adversários, e o fogo consumiu o que deixaram.

22:21Apega-te, pois, a Deus, e tem paz, e assim te sobrevirá o bem.

22:22Aceita, peço-te, a lei da sua boca, e põe as suas palavras no teu coração.

22:23Se te voltares para o Todo-Poderoso, serás edificado; se lançares a iniqüidade longe da tua tenda,

22:24e deitares o teu tesouro no pó, e o ouro de Ofir entre as pedras dos ribeiros,

22:25então o Todo-Poderoso será o teu tesouro, e a tua prata preciosa.

22:26Pois então te deleitarás no Todo-Poderoso, e levantarás o teu rosto para Deus.

22:27Tu orarás a ele, e ele te ouvirá; e pagarás os teus votos.

22:28Também determinarás algum negócio, e ser-te-á firme, e a luz brilhará em teus caminhos.

22:29Quando te abaterem, dirás: haja exaltação! E Deus salvará ao humilde.

22:30E livrará até o que não é inocente, que será libertado pela pureza de tuas mãos.

23:1Então Jó respondeu:

23:2Ainda hoje a minha queixa está em amargura; o peso da mão dele é maior do que o meu gemido.

23:3Ah, se eu soubesse onde encontrá-lo, e pudesse chegar ao seu tribunal!

23:4Exporia ante ele a minha causa, e encheria a minha boca de argumentos.

23:5Saberia as palavras com que ele me respondesse, e entenderia o que me dissesse.

23:6Acaso contenderia ele comigo segundo a grandeza do seu poder? Não; antes ele me daria ouvidos.

23:7Ali o reto pleitearia com ele, e eu seria absolvido para sempre por meu Juiz.

23:8Eis que vou adiante, mas não está ali; volto para trás, e não o percebo;

23:9procuro-o à esquerda, onde ele opera, mas não o vejo; viro-me para a direita, e não o diviso.

23:10Mas ele sabe o caminho por que eu ando; provando-me ele, sairei como o ouro.

23:11Os meus pés se mantiveram nas suas pisadas; guardei o seu caminho, e não me desviei dele.

23:12Nunca me apartei do preceito dos seus lábios, e escondi no meu peito as palavras da sua boca.

23:13Mas ele está resolvido; quem então pode desviá-lo? E o que ele quiser, isso fará.

23:14Pois cumprirá o que está ordenado a meu respeito, e muitas coisas como estas ainda tem consigo.

23:15Por isso me perturbo diante dele; e quando considero, tenho medo dele.

23:16Deus macerou o meu coração; o Todo-Poderoso me perturbou.

23:17Pois não estou desfalecido por causa das trevas, nem porque a escuridão cobre o meu rosto.

24:1Por que o Todo-Poderoso não designa tempos? e por que os que o conhecem não vêem os seus dias?

24:2Há os que removem os limites; roubam os rebanhos, e os apascentam.

24:3Levam o jumento do órfão, tomam em penhor o boi da viúva.

24:4Desviam do caminho os necessitados; e os oprimidos da terra juntos se escondem.

24:5Eis que, como jumentos monteses no deserto, saem eles ao seu trabalho, procurando no ermo a presa que lhes sirva de sustento para seus filhos.

24:6No campo segam o seu pasto, e vindimam a vinha do ímpio.

24:7Passam a noite nus, sem roupa, não tendo coberta contra o frio.

24:8Pelas chuvas das montanhas são molhados e, por falta de abrigo, abraçam-se com as rochas.

24:9Há os que arrancam do peito o órfão, e tomam o penhor do pobre;

24:10fazem que estes andem nus, sem roupa, e, embora famintos, carreguem os molhos.

24:11Espremem o azeite dentro dos muros daqueles homens; pisam os seus lagares, e ainda têm sede.

24:12Dentro das cidades gemem os moribundos, e a alma dos feridos clama; e contudo Deus não considera o seu clamor.

24:13Há os que se revoltam contra a luz; não conhecem os caminhos dela, e não permanecem nas suas veredas.

24:14O homicida se levanta de madrugada, mata o pobre e o necessitado, e de noite torna-se ladrão.

24:15Também os olhos do adúltero aguardam o crepúsculo, dizendo: Ninguém me verá; e disfarça o rosto.

24:16Nas trevas minam as casas; de dia se conservam encerrados; não conhecem a luz.

24:17Pois para eles a profunda escuridão é a sua manhã; porque são amigos das trevas espessas.

24:18São levados ligeiramente sobre a face das águas; maldita é a sua porção sobre a terra; não tornam pelo caminho das vinhas.

24:19A sequidão e o calor desfazem as, águas da neve; assim faz o Seol aos que pecaram.

24:20A madre se esquecerá dele; os vermes o comerão gostosamente; não será mais lembrado; e a iniqüidade se quebrará como árvore.

24:21Ele despoja a estéril que não dá à luz, e não faz bem à viúva.

24:22Todavia Deus prolonga a vida dos valentes com a sua força; levantam-se quando haviam desesperado da vida.

24:23Se ele lhes dá descanso, estribam-se, nisso; e os seus olhos estão sobre os caminhos deles.

24:24Eles se exaltam, mas logo desaparecem; são abatidos, colhidos como os demais, e cortados como as espigas do trigo.

24:25Se não é assim, quem me desmentirá e desfará as minhas palavras?



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